Souvenirs

A ponta do cigarro queimava em um vermelho vivo diante dos olhos dele. A mão dela segurava o cigarro, já na metade, delicadamente, e vez ou outra o levava a boca para mais uma tragada. A chama se intensificava quando ela tragava, mesmo com o vento frio da noite lutando para tentar apaga-lo, no final não conseguiu diminuir a pequena brasa.

A noite escura e sem estrelas no céu deixariam os dois no completo breu se não fosse uma fraca luz iluminando a varanda em que estavam. Apenas um cabelo prateado refletindo a luz e sendo levado pelo vento. Algumas vezes ela apoiava um braço no outro, como se protegesse do frio.

Ele se lembrou da primeira vez que a viu com um cigarro na mão, não foi surpresa para ele e a falta de surpresa dele a deixou surpresa naquela ocasião. Ela começou a contar uma nova história. Ele a ouvia com atenção, e a construção daquela cena, na cabeça dele, pareceu muito com a primeira conversa sincera que tiveram. Ela de frente para ele, que estava encostado na parede, falava, sorria e rodopiava e entre risadas algumas conversas sérias. Ficou surpreso por se lembrar tão bem da cena de tempos atrás, como se assistisse um filme, ou uma peça de teatro. Naquele momento chegou a conclusão que não precisava de muita coisa para registrar um bom momento. Não precisava nem mesmo ser perfeito para realmente ser um perfeito bom momento. Ela terminou o cigarro e a história. A noite havia terminado também. As cinzas seriam levadas pelo vento da manhã, mas a brasa continuaria queimando na memória.

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Canção

Meu mundo é errado
Meu mundo é uma mentira que vira verdade.
E eu me apaixono por aqueles que fogem de mim,
Quando o tempo todo, tudo o que eu preciso é de você.

Cante isso para fora, cante isso para fora.
Tome o que resta de mim,
E faça disso uma melodia.

Cante isso para fora, cante isso alto.
Não consigo achar as palavras para cantar
Venha ser meu remédio.

(em um mundo de agulhas no palheiro)


Sobre reis sapos

“Pois a Fantasia criativa se fundamenta no firme reconhecimento de que as coisas são no mundo assim como este aparece sob o sol; no reconhecimento do fato, mas não na escravização a ele. Assim fundamentou-se na lógica o absurdo que aparece nos contos e poemas de Lewis Carroll. Se as pessoas realmente não conseguissem distinguir sapos de homens, não teriam surgido contos de fadas sobre reis sapos.”
J.R.R. Tolkien


A capa vermelha do Superman

Superman é um herói legal. Preocupado com a sociedade está sempre tentando salvar as pessoas dos mais terríveis vilões, e já salvou o universo inteiro milhões de vezes. Mas a vida não é muito justa, e não se preocupa muito com as coisas que ocorreram no passado.

Certa vez, sobrevoando o Brasil, ele ouviu um grito de socorro, aparentemente alguém precisava urgentemente de seus socorros, a logo percebeu que eram muitas pessoas. Como um herói como ele poderia deixar essa oportunidade de fazer o bem passar? A toda velocidade voou para onde um grupo de pessoas se reunia. Mas definitivamente não era um bom dia para o Superman, ele já havia sentido isso quando acordou, assim que pousou um vento forte bateu e levantou sua capa vermelha, um símbolo de esperança até um tempo atrás, mas não hoje. Sem que pudesse se explicar um grupo de pessoas, aparentemente incapacitadas de raciocinar por elas mesmas, e o atacou. Logo pensou que poderia ser obra de algum vilão controlador de mente, era a opção mais viável. Rapidamente o grupo o cercou e o espancou. Se debatendo, mas sem usar muita força, pois, caso usasse, levaria a morte todos os pobres mortais, tentou indagar o motivo do ataque. A capa, a capa vermelha… Não havia nenhum motivo, além da cor que carregava. E como touros, cegos pela raiva, corriam atrás do tecido vermelho balançando.

Calma, gente! É só minha roupa. Vocês vão atacar as pessoas pela cor da roupa?

superman_paz

Super-Homem – Paz na terra – Arte Alex Ross


Um beijo torto…

“Estou em pé junto ao leito onde jaz uma jovem, seu rosto em pós-operatório; sua boca, retorcida com paralisia, tem um quê de palhaço. Um minúsculo ramo do seu nervo facial, aquele que controla os músculos da boca, foi removido. Ela ficará assim daqui em diante. O cirurgião havia seguido com religioso fervor a curvatura da sua carne, isso eu podia garantir. No entanto, para remover o tumor de sua bochecha, tive de cortar aquele nervinho.

O jovem esposo dela está no quarto. Ele está em pé no lado oposto da cama e juntos eles parecem habitar a luz vespertina da lâmpada, isolados de mim, num mundo particular. Quem são eles, pergunto a mim mesmo, ele e esta distorcida boca que fiz, que olham-se um ao outro tão generosamente, com tanta avidez?

A jovem fala:

– Minha boca vai ficar assim para sempre?

– Sim – digo. – Vai ficar assim porque o nervo foi cortado.

Ela assente e silencia. Mas o jovem sorri.

Eu gosto – ele diz. – Acho uma gracinha.

De repente sei quem ele é. Compreendo e baixo os olhos. Não devemos ser ousados na presença de um deus. Sem nenhum constrangimento, ele inclina-se para beijar a boca torta, e estou tão perto que consigo ver como ele entorta seus próprios lábios para ajustá-los ao dela, para mostrar-lhe que o beijo deles ainda funciona

Livro: Mortal lessons – Richard Selzer


Um Bauman certeiro…

“Quanto mais as pessoas permanecem num ambiente uniforme – na companhia de outras “como elas” com as quais podem ter superficialmente uma “vida social” praticamente sem correrem o risco da incompreensão e sem enfrentarem a perturbadora necessidade de traduzir diferentes universos de significado -, mais é provável que “desaprendam” a arte de negociar significados compartilhados e um modus covivendi agradável. Uma vez que esqueceram ou não se preocuparam em adquirir as habilidades necessárias para uma vida satisfatória em meio à diferença, não é de estranhar que os indivíduos que buscam e praticam a terapia da fuga encarem com horror cada vez maior a perspectiva de se confrontarem cara a cara com estranhos.”

Tempos Líquidos – Zygmunt Bauman


Dois lados, política e um bar

Certa vez entrei em um bar e dei de cara com uma cena assustadora, dois cavalheiros discutiam ferozmente sobre politica, e claramente eram de lados opostos. Para alguém que buscava esfriar a cabeça após um dia cheio de problemas, aquele era um péssimo cenário para se ficar. Mesmo assim decidi por pedir uma cerveja e, assim que terminasse ela, sairia de lá. Para os poucos e infelizes espectadores da discussão era impossível não prestar atenção, ambos os homens estavam prestes a apunhalar um ao outro, como animais arreganhar suas garras e ferir o adversário, e quem quer que se atrevesse a discordar deles.

Não lembro exatamente como eles eram, mas sei que existia uma boa diferença de idade e de ideologia ente eles. Um batia no lado esquerdo da mesa e o outro no lado direito, com todas as forças que tinham. Algumas pessoas se esforçavam para fingir que nada daquilo estava acontecendo, outros reclamavam do nível da conversa, e eu confesso que escutava a conversa com um interesse particular, enquanto pedia uma long neck qualquer, e talvez algo para comer.

Confesso também que não lembro do teor exato da conversa, o que me deixa preocupado com relação a minha memória, mas sei que era despejado pelos dois uma quantidade de dados impressionantes, que deixariam um jogador vivaz de RPG com certa inveja (uma péssima piada nerd envolvendo dado). Números atrás de números, que memória eles tinham, o que me deixou com inveja, ou eles tinham uma capacidade incrível de inventar coisas. Dei alguns goles na garrafa que o garçom deixou na mesa, e lembro que fiz algumas anotações mentais sobre a conversa.

A primeira anotação era sobre as vezes que ouvi conversas politizadas como aquela. Não eram conversas sobre o mesmo assunto, mas sim a mesma conversa, como um déjà vu. Como se frases fossem copiadas e coladas, uma discussão no nível CTRL+C e CTRL+V, usar posicionamentos e argumentos de outros para sustentar o seu é excelente, pegar o discurso completo de outro e incorporar na sua vida como se fosse seu soa como plagio, sendo algo que você nem parou para pensar. Para que pensar nisso se alguém já pensou, mais fácil só reproduzir. Me incomodou.

A segunda nota mental, diferente da anterior, me deixou surpreso. É que eles estavam tão convictos com seus argumentos, seus dados, suas frases que, ou os dois estavam errados, o que seria uma resposta plausível, ou os dois estavam certos, o que tornaria aquela conversa um tremendo de um paradoxo. No caso de os dois algozes, rivais de ideias, apologistas de sua posição política, essas opostas uma a outra, estarem certos, faria a conversa ser extremamente mais interessante.

Ainda sobre a segunda anotação mental, o fato dos dois gladiadores políticos estarem certo fazia com que um bebesse da fonte do outro em diversos momentos. Enxergar situações políticas e ideológicas como um fatal cabo de guerra, em que o objetivo principal é derrubar pessoas que pensam contrário a você na lama, bem, isso é natural, ainda mais no calor da discussão. Mas e quando a conversa empática é o que faria mais sentido, e, ao invés de ver um cabo de guerra, se veria um equilibrista andando na corda bamba no alto de um gigantesco prédio, onde o que mantém vivo é prestar atenção nos dois lados da vara que o auxilia no equilíbrio. Logo a função da conversa era o mesmo da vara de equilíbrio (ou alguma ferramenta de equilíbrio), ou seja, auxiliar a sociedade, que no caso seria o equilibrista, a chegar do outro lado em segurança, pelo menos enquanto precisar. Uma travessia perfeita, saindo do abismo.

A terceira nota mental era sobre os salgados que havia pedido. A coxinha estava deliciosa, mas o bolovo estava estranhamente preocupante, o que me fez não terminar ele. Logo, melhor não arriscar mais aquele salgado lá.

Dei o gole final na cerveja, coloquei o bolovo de volta na cesta, depois de umas duas mordidas, paguei a conta e deixei para trás os grandes guerreiros do futuro discutindo sobre os próximos passos e quem estava mais certo que o outro. A sensação de déjà vu era tanta que achei que tudo aquilo só poderia ser uma falha na Matrix. Por sinal, o primeiro da trilogia é muito bom, os outros… Bem, mas isso é uma outra discussão.

equilibrista